Defensoria Pública de Minas Gerais inicia a 2ª edição do “Mulheres em Foco” para fortalecer a participação feminina na política mineira 

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No Brasil, uma mulher é vítima de feminicídio a cada seis horas, e o país ocupa o 5º lugar no ranking mundial desse tipo de crime. Mundialmente, os homens ainda ocupam três vezes mais cargos executivos e legislativos, e o Brasil aparece apenas na 133ª posição em representação parlamentar feminina.  

Diante desse cenário, a Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) deu início, nesta terça-feira (24/3), à segunda edição do “Mulheres em Foco”, uma capacitação voltada a fortalecer a participação feminina na política e apoiar a criação e o fortalecimento das Procuradorias da Mulher nos municípios mineiros. 

O curso é destinado a vereadoras, vereadores, servidoras e servidores das Câmaras Municipais, além de mulheres interessadas em ingressar na vida pública. A iniciativa resulta de um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a DPMG, o Ministério das Mulheres e a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), por meio da Procuradoria da Mulher. 

Mesa de abertura da capacitação, com representantes da DPMG, da Assembleia Legislativa e do Ministério Público – Fotos: Bryan Carvalho/DPMG

Abertura marcada por defesa da representatividade 

A defensora pública-geral, Raquel Gomes de Sousa da Costa Dias, abriu o evento destacando a importância da representatividade feminina nos espaços de decisão. “A representatividade feminina em espaços políticos é fundamental. Quando uma mulher ocupa um lugar de liderança, ela não fala apenas por si, ela representa tantas outras que podem e devem estar nesses mesmos espaços, contribuindo com suas visões e habilidades para construir um mundo muito melhor”. 

Defensora pública-geral, Raquel Gomes de Sousa da Costa Dias: ” Quando uma mulher ocupa um lugar de liderança, ela não fala apenas por si”

Raquel da Costa Dias reforçou ainda o compromisso institucional da Defensoria mineira. “Somos privilegiados por atuar no sistema de Justiça e ter a oportunidade de transformar vidas todos os dias. Esse compromisso diário reforça a importância de termos mulheres em posições estratégicas, capazes de inspirar e ampliar caminhos para tantas outras”, afirmou a DPG. 

Feminicídio e silenciamento 

A deputada estadual Ione Pinheiro ressaltou a urgência do tema ao lembrar que as mulheres continuam sendo invisibilizadas e silenciadas — muitas vezes de forma extrema. “Somente em 2025, 1.470 vidas foram interrompidas pelo feminicídio”, afirmou. Para ela, a união entre a Defensoria Pública, o Ministério das Mulheres e Assembleia Legislativa de Minas Gerais é essencial para fortalecer políticas de enfrentamento à violência e ampliar a proteção às mulheres. 

Deputada estadual Ione Pinheiro

Violência estrutural e a necessidade de mudança 

A promotora de Justiça Ana Tereza Giacomini, coordenadora do Centro Estadual de Apoio às Vítimas do MPMG, ressaltou o simbolismo do encontro, realizado próximo ao encerramento do segundo mandato da defensora-geral. Ela lembrou que a violência contra a mulher não se resume à agressão física. “O afastamento das mulheres dos espaços de poder também perpetua violências cotidianas. Temos um enorme desafio de rompimento cultural e estrutural dessas formas de violência”, disse. 

Promotora de Justiça Ana Tereza Giacomini

Desigualdade de gênero no poder e o papel da formação 

A coordenadora estadual de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres da DPMG, Luana Borba Iserhard, destacou o curso como ferramenta para transformar conhecimento em ação concreta. Ela trouxe dados recentes que reforçam a desigualdade global e nacional na participação feminina na política. 

“Mundialmente, os homens ainda ocupam mais de três vezes o número de cargos executivos e legislativos. No Brasil, estamos na 133ª posição em representação parlamentar feminina e na 53ª em cargos ministeriais. Esses números mostram o quanto ainda precisamos avançar”, relatou a defensora pública. 

Para ela, essa ausência afeta toda a sociedade. “Espaços inclusivos são mais ricos, diversos e produzem políticas públicas mais eficazes. Quando as mulheres são afastadas da política, toda a sociedade perde”, finalizou Luana Borba. 

Coordenadora estadual de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres da DPMG, Luana Borba Iserhard

Formação para atuação política e transformação social 

A defensora pública Silvana Lobo, coordenadora da Escola Superior, reforçou o propósito da capacitação de despertar o interesse das mulheres pela atuação na vida pública. 

“Não basta que poucas de nós reclamem à distância. É preciso ocuparmos os espaços onde as leis são feitas. A representação é diferente quando vem de quem sente, na própria história, os impactos das desigualdades”, afirmou Silvana Lobo. 

Ela reconheceu que as cotas ainda são necessárias, mas vislumbra um futuro mais igualitário. “Eu sonho com o dia em que nenhuma política afirmativa será necessária. Mas isso só acontecerá se continuarmos essa construção, como fizeram as mulheres que vieram antes de nós”, finalizou. 

Coordenadora da ESDEP, defensora pública Silvana Lobo

Papel do Estado e articulação institucional 

A coordenadora-geral de Participação Política das Mulheres em Espaço de Poder do Ministério das Mulheres, Edneide Arruda Pereira, reforçou que o enfrentamento às desigualdades exige ação do poder público. 

“Os movimentos sociais são fundamentais, mas o Estado precisa assumir sua parte, especialmente no combate à violência política contra as mulheres, uma violência histórica, que tem se agravado nos últimos anos.” 

Edneide Arruda também destacou os desafios enfrentados nas áreas de educação, cultura e segurança, e apontou a importância das parcerias institucionais e parabenizou a iniciativa.  “É muito significativo saber que há uma ação potente acontecendo na ponta, em todo o estado. Trazer esse debate de forma pedagógica e transformadora é essencial para avançarmos”. 

Na sequência, foram iniciadas as apresentações das facilitadoras do curso. Ao longo da capacitação serão abordados temas como feminicídio, rede de atendimento, papel da educação e da saúde, violência política de gênero e representatividade das mulheres, entre outros.   

Edneide Arruda participou de forma remota

Próximas etapas do curso 

Mais de 80 pessoas se inscreveram para esta edição do Mulheres em Foco. Os próximos encontros ocorrerão nos dias 25, 26 e 27 de março, no Auditório da DPMG e pela plataforma ESDEP EAD. 

O programa também orienta Procuradorias da Mulher na elaboração de proposições legislativas, fiscalização de políticas públicas, acolhimento de casos de violência e cooperação com organismos nacionais e internacionais. 

A iniciativa é coordenada pela CEDEM/DPMG, em articulação com a ALMG e o Ministério das Mulheres, reforçando o compromisso das instituições com o fortalecimento da democracia, a ampliação da presença feminina nos espaços de poder e a promoção da igualdade de gênero. 

Alessandra Amaral – Jornalista / DPMG.