‘Foi essa rede que me sustentou’, diz participante no encerramento da 3ª edição do projeto Caminho de Reconstrução
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“Foi essa rede que me sustentou. Se eu não tivesse isso, acho que eu não conseguiria estar aqui.” O relato de uma das participantes marcou, na quinta-feira (6/8), o encerramento da 3ª edição do projeto “Caminho de Reconstrução: Encontros Restaurativos para Mulheres em Situação de Violência Doméstica”, realizado pela Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG), em Brumadinho.
A iniciativa tem como objetivo acolher mulheres que enfrentam ou já enfrentaram relações abusivas e agressões em seus lares, moradoras da comarca de Brumadinho, incluindo os distritos de Aranha, Conceição de Itaguá, Piedade do Paraopeba e São José do Paraopeba.
Nesta edição, realizada pela primeira vez em parceria com o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) do município, as atividades foram conduzidas pela defensora pública Juliana da Silva Martins, à frente do projeto, e pela psicóloga Ágata Ferreira Moreno, que acompanhou todos os encontros.
Ao longo de oito encontros, as participantes tiveram acesso a palestras, rodas de conversa, dinâmicas de acolhimento e atividades voltadas à educação em direitos, apresentação da Rede de Proteção, autoestima, empoderamento, saúde, autonomia, projeto de vida e estratégias práticas para o enfrentamento do ciclo de violência.
A proposta do “Caminho de Reconstrução” é oferecer um ambiente seguro para que as mulheres possam compartilhar vivências, fortalecer vínculos, receber apoio jurídico e psicológico e encontrar possibilidades de recomeço por meio da educação em direitos e das dinâmicas realizadas após as palestras.
Durante a cerimônia de encerramento, as participantes receberam certificados e foram convidadas a compartilhar suas experiências. O momento também foi dedicado ao reconhecimento das profissionais, palestrantes e convidadas que contribuíram para a realização dos encontros.
Para a defensora pública Juliana da Silva Martins, a terceira edição foi marcada pela confiança construída entre as participantes e pela força da rede de apoio. “Ao longo desses oito encontros, nós não apenas assistimos a palestras. Nós construímos um espaço seguro de escuta e acolhimento”, afirmou.
Juliana destacou que o projeto permitiu às mulheres reconhecerem seus direitos, fortalecerem a autoestima e perceberem que não estão sozinhas. “O Caminho de Reconstrução não é uma linha reta. Ele é feito de idas e vindas, de coragem e de cautela. O importante é que vocês saibam que, independentemente da fase em que estão, vocês não são mais invisíveis. Vocês têm voz”, disse.
A defensora também ressaltou o aprendizado proporcionado pela convivência com o grupo. “Aprendi sobre uma resiliência que não está nos livros de Direito. Aprendi sobre a força de seguir em frente mesmo quando o mundo parece desabar. Aprendi que a sororidade, essa união entre mulheres, é a ferramenta mais poderosa de defesa que existe”, declarou.

A psicóloga Ágata Ferreira Moreno afirmou que o encerramento representa o fim de um ciclo, mas não o término das histórias iniciadas no projeto. Segundo ela, os encontros foram pensados para que cada mulher pudesse recuperar aquilo que a violência muitas vezes tenta retirar: a voz, o pertencimento, a esperança e a certeza de que não está sozinha.
“Vocês não foram apenas participantes. Vocês foram protagonistas deste projeto. Cada uma contribuiu com sua história, com sua força e com sua maneira única de inspirar outras mulheres”, afirmou Ágata.
Ao relembrar as dinâmicas realizadas após as palestras, a psicóloga destacou a importância da escuta e do respeito ao tempo de cada participante. “No círculo, ninguém fica à frente ou atrás. Todas ocupam o mesmo lugar. Todas têm voz. Todas são ouvidas”, disse.
O secretário municipal de Desenvolvimento Social, Washington Moreira de Carvalho, também participou da cerimônia e ressaltou a relevância da articulação entre instituições para garantir atendimento às mulheres do município. Ele agradeceu a parceria com a Defensoria Pública e afirmou que os desafios são grandes, mas exigem união de esforços entre as políticas públicas, a rede de assistência social e os órgãos do sistema de Justiça.

Em sua fala, o secretário também defendeu o fortalecimento dos espaços de participação social, como o Conselho Municipal da Mulher, para que as políticas públicas sejam direcionadas às necessidades reais das mulheres de Brumadinho.
O depoimento de uma das participantes sintetizou o alcance da rede de proteção e do projeto. Ela contou que chegou ao atendimento em um momento de grande fragilidade e que, ao longo do percurso, encontrou apoio no CREAS, na Defensoria, na polícia, em profissionais da rede e nas demais mulheres do grupo.
“Às vezes, a gente passa tanta coisa e não percebe o que está passando. Quando descobre, geralmente é porque já chegou no fundo do poço, quando o corpo e a saúde já não aguentam mais”, relatou.
Segundo a participante, a rede de apoio foi essencial para sua decisão de romper com a violência. “Eu preferi comer arroz com ovo, acender uma vela se não tivesse luz, ficar no escuro se fosse preciso, mas não passar mais por essa vida. É só quando a gente decide isso que consegue sair”, afirmou.
Ao final, ela pediu que o trabalho continue. “Continuem, deem força. Se foi essencial para mim, tenho certeza de que é para muita gente”, disse.
Para Juliana da Silva Martins, o encerramento dos encontros não significa o fim do compromisso da Defensoria Pública com as participantes. “Muito obrigada por confiarem na Defensoria Pública e no CREAS. Muito obrigada por permitirem que fizéssemos parte da reconstrução de vocês. Vocês são gigantes”, concluiu.
Os nomes e as imagens das participantes não foram divulgados, a fim de preservar sua intimidade e privacidade.

Alessandra Amaral – Jornalista/DPMG.